Solidão pode se tornar estratégia de sobrevivência no ambiente corporativo, alerta especialista
Pesquisa inédita da Aon e TELUS Health aponta que 33% dos 10 mil trabalhadores ouvidos vivenciam a solidão; especialista explica como a falta de segurança psicológica pode reforçar o isolamento nas empresas

A solidão já é uma realidade para uma parcela significativa dos trabalhadores e pode assumir uma função inesperada no ambiente corporativo: a de uma estratégia de sobrevivência. Uma pesquisa inédita realizada pela Aon e pela Tellus, com 10 mil trabalhadores, mostrou que 33% dos entrevistados sofrem de solidão.
O dado reforça a importância de compreender a solidão não apenas como ausência de relacionamentos ou interação social, mas também como um fenômeno que pode afetar a forma como o profissional se relaciona com colegas, lideranças e com a própria organização.
O tema foi abordado pelo renomado médico neurologista e neurocientista brasileiro, Ivar Brandi, durante o 24º Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida (CBQV), realizado pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV). Segundo ele, a solidão pode funcionar inicialmente como um mecanismo biológico de sinalização de que existe uma necessidade de conexão social.
“A solidão é um fenômeno biológico. Ela nos sinaliza que nós precisamos nos conectar socialmente”, explica.
Assim como fome, sede, frio e calor sinalizam ao organismo a necessidade de uma resposta, a percepção de solidão indica que algo relacionado à conexão social precisa ser enfrentado. O problema ocorre quando esse estado se prolonga e o indivíduo passa a enxergar a socialização predominantemente como uma fonte de risco.
Quando se isolar parece ser a melhor opção
Segundo o especialista, pessoas que vivenciam a solidão podem permanecer em um estado de estresse crônico e, especialmente após experiências negativas de socialização, passar a supervalorizar os riscos do contato com outras pessoas e a desvalorizar seus possíveis benefícios.
Nesse cenário, o retraimento social pode aparecer como uma forma de autopreservação.
“Em um ambiente social em que ela está muito acuada ou está desconfiando de um risco da socialização, ela recorre ao retraimento social, a mais solidão como estratégia de sobrevivência”, afirma.
Nas empresas, esse mecanismo pode ser observado em profissionais que, mesmo quando estimulados pela liderança a participar de reuniões, projetos ou atividades coletivas, evitam se expor. O receio de julgamento, de exposição ou de uma possível punição pode fazer com que o trabalhador prefira permanecer em silêncio e reduzir suas interações.
O comportamento pode criar um ciclo: quanto menos o profissional se relaciona, menor pode ser sua sensação de pertencimento, o que, por sua vez, pode reforçar o isolamento.
Segurança psicológica é peça-chave
A presença ou ausência de segurança psicológica no ambiente de trabalho tem papel importante nesse processo. Para o especialista, quando o trabalhador não percebe o ambiente como seguro, tende a evitar riscos interpessoais fundamentais para a colaboração e a inovação.
“A segurança psicológica é o que vai permitir ao colaborador correr riscos, tanto em momentos informais quanto nos momentos oficiais de trabalho. Então, expor a sua opinião, propor outras estratégias, propor soluções inusitadas para um determinado problema”, explica.
Sem essa segurança, o profissional pode deixar de apresentar ideias, fazer perguntas, discordar de uma decisão ou compartilhar dificuldades.
Uma estratégia de sobrevivência que pode se tornar disfuncional
Embora o isolamento possa funcionar como uma resposta de autopreservação em determinadas circunstâncias, o especialista destaca que seus efeitos podem se tornar prejudiciais quando o comportamento se mantém de forma crônica.
Ele compara o fenômeno à ansiedade. Um determinado nível de ansiedade diante de uma reunião, de um novo projeto ou de uma mudança de função pode preparar o indivíduo para lidar melhor com o desafio. Quando excessiva, porém, a ansiedade deixa de cumprir essa função adaptativa. Com a solidão, o mecanismo seria semelhante.
“É uma estratégia falha, mas é uma estratégia que é consequência do mecanismo biológico. Por isso que a solidão tem que ser detectada e revertida. É uma estratégia de adaptação disfuncional”, afirma.
Por isso, o especialista ressalta que identificar sinais de retraimento e criar ambientes que favoreçam vínculos e pertencimento são medidas importantes para as organizações.
Jovens e profissionais neurodivergentes estão entre os grupos que demandam atenção
O fenômeno também merece atenção especial entre profissionais que estão chegando ao mercado de trabalho. Na experiência do especialista, jovens podem enfrentar dificuldades para construir vínculos e desenvolver uma sensação de pertencimento nas organizações.
A situação pode ser ainda mais complexa para profissionais neurodivergentes, incluindo pessoas autistas, que podem apresentar maiores dificuldades de socialização e estar mais suscetíveis aos efeitos do isolamento.
“Eu vejo profissionais jovens que estão chegando no mercado de trabalho e não se sentem acolhidos, não têm uma sensação de pertencimento. (...) Eles estão muito mais susceptíveis aos efeitos da solidão”, afirma.
Diante desse cenário, o desafio das organizações é reconhecer que o isolamento nem sempre representa falta de interesse, desmotivação ou baixo engajamento. Em determinadas situações, pode ser o reflexo de um profissional que não se sente seguro para participar.




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