77,8% das empresas acham importante que os funcionários se desconectem após o expediente, mas, 88,9% delas não possuem políticas de desconexão, mostra levantamento da ABQV
Atualizado: 21 de ago.
A cultura da disponibilidade permanente está concentrada principalmente nos cargos de liderança. Gerentes, diretores e executivos C-Level aparecem entre os profissionais que mais permanecem conectados à empresa após o expediente

Em um momento em que a saúde mental ganha cada vez mais espaço na agenda corporativa e a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) reforça a necessidade de gerenciar riscos psicossociais, um levantamento realizado pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV) revela que o direito à desconexão ainda está longe de fazer parte da realidade das empresas brasileiras.
A pesquisa ouviu representantes de empresas de diferentes setores da economia que, juntas, somam mais de 300 mil colaboradores, e mostrou que 88,9% das organizações ainda não possuem políticas formais que orientem ou proíbam os colaboradores de responder mensagens de trabalho, como WhatsApp e e-mails, após o expediente. Apenas 11,1% afirmaram já contar com esse tipo de política. Foram ouvidas empresas associadas à ABQV em nível nacional, em especial Diretores de RH.
Mesmo quando consideradas práticas menos formais, ou seja, sem que elas façam parte de um plano estrutural da organização, o cenário continua semelhante. Segundo o levantamento, 77,8% das empresas não possuem qualquer orientação relacionada ao direito à desconexão, enquanto apenas 22,2% afirmaram adotar esse tipo de iniciativa. Além disso, entre as organizações que ainda não possuem essas práticas, 55,6% disseram que sequer estudam implantá-las.
Para a Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), os dados mostram que o tema já desperta atenção das lideranças, mas ainda não foi incorporado de forma estruturada à gestão de pessoas.
"A desconexão deixou de ser apenas uma discussão sobre qualidade de vida e passou a fazer parte da gestão dos fatores de risco psicossociais. Em um ambiente de trabalho cada vez mais conectado, é fundamental que as empresas estabeleçam limites claros para preservar a recuperação física e emocional dos trabalhadores. A tecnologia deve apoiar a produtividade, e não ampliar continuamente a jornada de trabalho", afirma Ana Carolina Peuker, psicóloga, Diretora da ABQV e uma das coordenadoras do levantamento.
Empresas ainda não reconhecem a importância do tema
Quando perguntadas sobre a relevância de incentivar os trabalhadores a se desconectarem dos aplicativos corporativos após o expediente, apenas 35,6% atribuíram notas 4 ou 5 ( em uma escala que vai de 1 = pouco importante; 5 = muito importante se desconectar) demonstrando que o assunto ainda é embrionário em relação à percepção das lideranças.
Sendo assim, a conexão permanente continua sendo uma realidade. Para 48,9% dos participantes, responder mensagens de trabalho fora do horário é uma prática comum na empresa. Outros 42,2% afirmaram que isso ocorre de forma pontual. Apenas 2,2% disseram que essa prática não faz parte da cultura organizacional ou é proibida por regras internas, enquanto 6,7% respondem, mesmo não sendo permitido.
Altas lideranças permanecem conectadas
Outro dado relevante obtido em uma escala na qual os respondentes puderam apontar em quais níveis hierárquicos a conexão era mais presente, a cultura da disponibilidade permanente se mostrou concentrada principalmente nos cargos de liderança. Gerentes, diretores e executivos C-Level aparecem entre os profissionais que mais permanecem conectados à empresa após o expediente.
Entre as empresas respondentes, 44 apontam que os gerentes costumam permanecer conectados por canais como WhatsApp, e-mail e aplicativos corporativos fora do horário de trabalho, o maior número registrado na pesquisa. Em seguida aparecem coordenadores e diretores, ambos com 40 citações, enquanto o C-Level foi mencionado por 35 respondentes. No extremo oposto, o nível operacional registra apenas 18 citações para essa prática e 27 respostas indicando que ela "não se aplica", sendo o único grupo em que essa opção supera a de manutenção da conexão após o expediente. Os dados indicam que a permanência online tende a aumentar conforme cresce o nível de responsabilidade e de liderança dentro das organizações.
Saúde mental ainda é desafio
A pesquisa também investigou as ações voltadas à prevenção dos fatores de risco psicossociais. O resultado mostra que 64,4% das empresas ainda não possuem programas específicos para prevenção desses riscos ou para promoção da saúde mental. Apenas 35,6% afirmaram desenvolver iniciativas estruturadas nessa área.
Para a ABQV, os resultados demonstram que existe espaço para que as organizações avancem na construção de ambientes de trabalho mais saudáveis, especialmente em um contexto em que a gestão dos riscos psicossociais passa a ocupar posição estratégica.
"As empresas já reconhecem que a desconexão é importante, mas o próximo passo é transformar esse entendimento em cultura, processos e liderança. Criar ambientes psicologicamente saudáveis passa também por respeitar os momentos de descanso e recuperação dos trabalhadores", conclui Fátima Macedo, Diretora da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV) e uma das responsáveis pelo levantamento.
Sobre a Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV)
A Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV) é uma organização sem fins lucrativos, fundada em 1995, com a missão de transformar o cenário da saúde e da qualidade de vida nas organizações. Parte do princípio de que o sucesso empresarial depende do bem-estar físico, mental e social dos trabalhadores, promovendo não apenas produtividade, mas também uma sociedade mais equilibrada e saudável. Reconhecida internacionalmente como referência no tema, a ABQV atua para impactar positivamente a vida das pessoas e a cultura organizacional por meio de conhecimento, inovação baseada em evidências e ações estruturadas em saúde integral. Para isso, fomenta parcerias nacionais e internacionais, apoia pesquisas e estudos, capacita profissionais e empresas, promove eventos e dissemina tendências e boas práticas de mercado. Sua atuação é guiada por um Código de Conduta Ética e pelos valores que dão significado ao seu trabalho: Responsabilidade, Integração, Saúde Integral, Inovação com Propósito, Diversidade e Inclusão, e Sustentabilidade.


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