Apenas 1 em cada 5 empresas age sobre as causas do adoecimento mental no trabalho, aponta levantamento
Empresas acolhem quem adoece, mas ainda intervêm pouco no trabalho que adoece, mostra Radar de Maturidade 2026

Levantamento inédito da Bee Touch, promovido pela ABQV no 24º Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida, reuniu 124 empresas e mostra que estruturas contra violência e assédio (63,7%) avançam mais do que prevenção, liderança e melhoria contínua, pilares da gestão de riscos psicossociais exigida pela NR-1
As organizações participantes avançaram na criação de mecanismos de proteção e cuidado, mas ainda têm dificuldade de agir sobre as condições de trabalho que geram adoecimento. É o que aponta o Radar de Maturidade em Saúde Mental e Gestão de Riscos Psicossociais 2026, desenvolvido e realizado pela Bee Touch, deeptech brasileira especializada em gestão de riscos psicossociais, com promoção da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).
O Radar foi aplicado on-line entre agosto e outubro de 2026, durante a preparação e a realização do 24º CBQV, em São Paulo. Foram 124 respostas válidas de profissionais de organizações de diferentes portes e setores, com destaque para indústria e manufatura (15,3%), saúde e serviços hospitalares (14,5%) e transporte, logística e mobilidade (12,1%). Organizações com mais de mil trabalhadores representaram 42,7% da amostra.
O índice médio de maturidade foi de 55,3%. Quase metade dos respondentes (46,8%) ficou nos estágios mais avançados da escala, Integrado e Transformador, enquanto 25,8% ainda estão nos estágios iniciais, Reativo e Emergente.
Acolher é diferente de prevenir
A prática mais presente é a estrutura formal para violência e assédio, com política, canal de denúncia, apuração e sanções, declarada por 63,7% dos participantes. Em seguida vem o acesso estruturado a apoio psicológico, com 44,4%.
O contraste aparece quando se olha para a prevenção. Apenas 21,8% declararam intervenções formais nas condições de trabalho, como distribuição de demandas, autonomia, clareza de papéis e redesenho de funções. A diferença entre cuidado e intervenção foi de 18,1 pontos percentuais, estatisticamente significativa.
“As empresas aprenderam a acolher quem adoece. O próximo passo é mudar o trabalho que adoece, e é exatamente isso que a NR-1 passa a exigir”, afirma a Dra. Ana Carolina Peuker, coordenadora técnica do Radar.
Desde maio de 2026, a NR-1 inclui os fatores de riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), o que exige identificar, avaliar e controlar riscos na organização do trabalho, e não apenas oferecer assistência.
Liderança, dados e melhoria contínua são os pontos fracos
A avaliação formal e periódica de riscos e o uso integrado de dados nas decisões aparecem em 37,9% das respostas cada, e o monitoramento de indicadores em 35,5%. Governança estratégica formalizada e formação contínua de lideranças ficam em 28,2%. Programas regulares de capacitação somam 25,8%, mesmo índice aproximado de segurança psicológica para falar sobre saúde mental e de reporte externo estruturado (25%). O menor resultado é o ciclo documentado de melhoria contínua, com 21%.
“A liderança decide prioridades, distribui tarefas e define o clima do dia a dia. Sem gestores preparados e sem um ciclo de revisão baseado em dados, as boas iniciativas não se sustentam. O desafio agora é sair da resposta pontual para a gestão contínua”, destaca Peuker.
Porte ajuda, mas não explica tudo
Organizações maiores tendem a ter índices mais altos: 63,4% entre as com mais de mil trabalhadores, contra 36,4% entre as com até 50. Mas o porte respondeu por apenas 11,1% da variação, o que indica que governança, preparo das lideranças e processos de prevenção pesam mais do que o tamanho da empresa.
Metodologia
O Radar é uma ferramenta digital de autoavaliação com devolutiva imediata, desenvolvida pela equipe técnica da Bee Touch. Tem 12 perguntas pontuadas sobre práticas organizacionais e uma pergunta complementar, com classificação em cinco estágios: Reativo, Emergente, Estruturado, Integrado e Transformador. A amostra é voluntária e autodeclarada; os resultados descrevem os participantes e não representam o conjunto das organizações brasileiras nem equivalem a certificação de conformidade com a NR-1 ou a ISO 45003.
Sobre a Bee Touch
A Bee Touch é uma deeptech brasileira de inteligência psicossocial, especializada em gestão de riscos psicossociais e saúde mental no trabalho. Une tecnologia, dados proprietários e uma equipe multidisciplinar de especialistas para apoiar organizações na identificação, avaliação e gestão desses riscos. Atende mais de 200 empresas e foi reconhecida entre as 100 Startups to Watch em 2024 e 2025. Sediada no BioHub, em Porto Alegre (RS). beetouch.com.br

